
- como você está?
- estou bem, acabei de entrar em casa... que horas você chega?
- não vou para casa...
- aconteceu algum imprevisto na viagem... porque você está tão evasiva?
- não, tudo normal... só liguei para dizer que te amo e que nosso casamento acabou.
- como acabou?
- é isso mesmo, não vou mais voltar para casa.
- e as crianças?
- as crianças são inteligentes, vão entender...
- você está louca... o que deu em você?
- nada, só não quero mais ser casada.
- você tem outra pessoa... pode dizer.
- não, só não quero mais estar casadas e ter filhos.
- não acredito nisso.
- mas é verdade, esse formato de vida ficou obsoleto e não estou mais feliz comigo ou o que me tornei enquanto sujeito de uma relação tradicional em uma vida tradicional que na verdade nunca concordei de fato.
- não acredito que você nem se dignou a vir para casa para me dizer que acabou, sequer se despedir das crianças...
- é que ganhei uns bônus da operadora e achei melhor usar antes que a promoção acabe.
- então é assim?
- assim é melhor...
- tudo se resumiu a um telefonema para notificar que o amor acabou e você vai embora para tentar ser feliz sozinha?
- não disse que o amor acabou... até acredito que nunca mais vou amar alguém... por que eu te amo e vou te amar para sempre. umas pessoas tem sorte e outras não.
- sorte? o que a sorte tem haver com isso?
- não sei, mas a sorte deve ser importante em uma relação, muita gente tem sorte no amor.
- não seja idiota... tem sorte quem erra um tiro na cabeça com um tambor faltando apenas uma bala.
- mas pode também ser azar, dependendo do ponto de vista.
- as coisas não podem ser resumidas em sorte ou azar.
- tem um monte de casos em que elas determinam muitas coisas.
- o que a sorte ou o azar determinam?
- não sei, mas devem determinar... não conheço nenhum caso mas deve existir...
- como foi hoje no trabalho?
- o que importa o trabalho... você está sendo covarde, está indo embora por que acha que pode ser mais feliz com outra pessoa.
- a vida não se resume a encontrar pessoa e ser feliz...
- então a que se resume a vida, senão a procura da felicidade?
- como eu vou saber... quem sabe o sentido de tudo isso?
- venha para casa, para conversarmos melhor.
- já tenho uma casa, aluguei um apartamento em cima do meu novo emprego...
- então é isso... os motivos sempre vem à tona... então é por grana?
- na verdade é também... pedi exoneração da presidência da corporação e comecei a trabalhar de garçonete em uma lanchonete...
- você enlouqueceu... meu deus você está completamente louca.
- na verdade nunca estive mais sã que agora... e muito mais certa das minhas escolhas... além do mais não tenho que escolher muitas coisas... ou sirvo café ou sirvo chá, você deveria ver como é maravilhoso servir café ou chá.
- deve ser algo que use todo o conhecimento que adquiriu na universidade.
- você nem imagina... há toda uma mística universal em torno do pedido das pessoas.
- tudo bem, você tira suas férias brincando de ser pobre, depois nós conversamos ou simplesmente passamos uma grande borracha nisso tudo.
- você não está ouvindo... não vou voltar .
- sei que você vai enjoar dessa sua nova vida e vai querer que tudo volte a ser como antes... diferente, mas... você entendeu.
- disso eu tenho certeza... mas, quando não quiser mais trabalhar como garçonete estou pensando em colher laranjas ou ser vendedora de porta em porta, para começar.
- e até quando vai isso?
- até eu fazer tudo que quiser fazer... e vai levar muito tempo.
- porque isso agora... que tipo de reação ao tédio se apoderou de você?
- todas elas... eu só tenho uma vida, e a maior parte dela passei fazendo coisas que me mandaram ou que achei que gostava ou que gostava e não quero mais ou que eram necessárias para os outros... agora eu vou ser um pouco de cada coisa que exista para se ser no mundo.
- isso é loucura... você vai ser uma hippie nômade vivendo para comer.
- eu só quero existir o maior tempo possível de minha vida.
- existir?
- existir é bom... você deveria experimentar.
- então vamos existir juntos... uma família que existe junta com todos juntos.
- mas isso não é existir... senão essa conversa não existiria.
- e o que eu digo para as crianças?
- você é um bom pai, vai encontrar uma forma apropriada de dizer.
- vou dizer que você foi comprar cigarros no inferno sua vadia louca.
- é um lugar bem longe...
- ou você pode ir pra puta que pariu também... o que você acha disso?
- pode ser... mas meus créditos estão acabando.
- então é adeus?
- nunca esqueça que jamais vou deixar de amar todos vocês e sempre estarão no meus mais doces pensamentos onde quer que eu esteja. um beijo.
- qualquer coisa me liga. beijo.
